Um alerta sobre as farmácias

Um alerta sobre as farmácias

Em virtude do Dia Nacional da Farmácia nós do Blog Tá Agendado queremos fazer um alerta sobre a situação do setor no Brasil

 

Ontem dia 05 de Agosto foi o Dia Nacional da Farmácia. Mas infelizmente dados recentes tem preocupado as autoridades médicas e sanitárias. Isso porque o Brasil atualmente possui quatro vezes mais farmácias do que o recomendado, o que acaba levando o país a viver uma verdadeira “cultura do remédio”. Para se ter uma ideia em apenas duas décadas, o número de farmácias cresceu 48%. E isso significa que temos uma verdadeira “overdose” de farmácias.

Quem já transitou pelas ruas do centro de qualquer grande metrópole brasileira já ficou com a sensação de que há uma farmácia em cada esquina. E no final das contas isso é verdade!
Estatísticas recentes medidas na cidade de São Paulo mostram que existem pontos de concentração tão críticos que existem mais de 5 farmácias em um raio de apenas 1 quilometro de distância.

E para ser ainda mais literal parece existir no segmento uma preferência pelos pontos de esquina. Esse fenômeno também é conhecido como “cornershops”, uma estratégia para ter maior visibilidade e atrair os consumidores que ziguezagueiam em busca de ofertas e descontos. Nessa disputa, entram também as garrafas de chá e café, as cadeiras de espera, estacionamento e até brinquedoteca.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que essa relação seja de uma para 8 mil habitantes. Mas o que hoje existe no Brasil é a relação de uma farmácia para cada 2 mil habitantes, ou seja: quatro vezes mais que o recomendado.

 

Mas o que explica o fenômeno do excesso de farmácias no Brasil?

A indústria farmacêutica tem o diagnóstico na ponta da língua: o crescimento da classe média, o aumento da expectativa de vida, a diversificação do negócio e o melhor acesso a diagnósticos e tratamentos seriam algumas das causas da expansão.

O aumento da quantidade de farmácias é reflexo da demanda por qualidade de vida, de estar bem consigo mesmo. É uma demanda dos tempos modernos e, além disso, o Brasil está envelhecendo.

Há, no entanto, quem considere o boom de estabelecimentos farmacêuticos sintoma do descontrole de uma complexa engrenagem envolvendo laboratórios, médicos e pacientes e que leva ao excesso de medicalização da vida.

Para o autor do livro Voltando ao Normal (Versal Editores, lançado no Brasil em 2016), o renomado psiquiatra norte-americano Allen Frances afirma que milhões de pessoas saudáveis – incluindo crianças – estão tomando remédios sem necessidade. Ao contrário do que muitos pensam, a culpa, segundo ele, não é do nosso atual ritmo alucinante de vida, mas da “inflação diagnóstica” induzida pelos fabricantes de pílulas.

A vida sempre foi difícil. O crescimento de transtornos mentais não ocorre porque a vida está mais estressante ou porque estamos adoecendo mais. Está relacionado com o interesse comercial dos laboratórios, o desorganizado sistema médico e alguns critérios de diagnóstico mais frouxos.

Já de acordo com a avaliação da psicóloga Helivalda Pedroza Bastos, a dependência de pílulas foi gerada, ao longo dos anos, a partir de ações deliberadas dos laboratórios para disseminar a “cultura do remédio”. A pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP) diz que as pessoas passaram a confiar mais nos comprimidos do que na própria resiliência. Uma das consequências seria o uso abusivo de medicamentos, como a Ritalina, utilizada no tratamento do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), sobretudo em crianças e adolescentes. Em 10 anos, o consumo do medicamento saltou 775% no país.

As pessoas são suscetíveis a imaginar que os remédios são mais eficazes do que realmente são. Muitas coisas têm uma resposta independentemente do tratamento. É o famoso efeito placebo. Por isso, costumo dizer para meus pacientes: não faça nem da doença nem do remédio o centro da sua vida.

Submit a Comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *