Como falar com as crianças sobre a morte de alguém querido

Como falar com as crianças sobre a morte de alguém querido

A morte é um assunto delicado e  difícil de entender até mesmo para nós adultos. E para as crianças é ainda mais confuso. Por isso, eles precisam de todo o apoio e sinceridade nos momentos em que devem encarar a perda de uma pessoa próxima

 

Todos nós já passamos ou vamos passar pela experiência de perder um ente querido em algum momento da vida. A morte é então um assunto inevitável, e esse é o motivo de se procurar formas eficazes que nos ajudem a enfrentar o processo de luto da maneira menos traumática possível.

Por ser um assunto desconfortável muitas vezes evitamos falar nisso, principalmente quando o receptor da notícia é uma criança. Assim os adultos tem a tendência de esconder e demorar a dar a notícia numa tentativa de mantê-las afastadas de tudo o que tenha  a ver com a morte.

Mas todos os especialistas em psicologia infantil concordam com a importância de falar sobre a morte para as crianças desde bem pequenas, para facilitar a compreensão e melhorar o enfrentamento de situações futuras, ajudando-as a verem a morte como um processo natural.

Assim, antes de abordar o processo de luto de uma criança, é interessante ver como o conceito de morte é desenvolvido de acordo com o estágio evolutivo.

 

A partir de que idade devo falar sobre a morte com os meus filhos?

Não existe idade certa para tocar no assunto. O ideal é que se espere a necessidade, seja pelo falecimento de alguém conhecido ou a curiosidade do pequeno. “Aos 4 ou 5 anos as crianças começam a entender as relações da vida e a ter acesso maior às informações”, explica o coordenador do curso de Tanatologia (Educação para a Morte) da Disciplina de Emergências Clínicas da FMUSP, Franklin Santana Santos. O que se deve fazer é ir educando seu filho através de exemplos práticos do ciclo da natureza. Semeie uma plantinha e vá mostrando como ela nasce, cresce, adoece e morre. Aquele feijãozinho plantado no algodão pode ser um ótimo aliado. Cantigas, livros infantis e filmes que tratam do assunto também ajudam.

São três pontos que as crianças precisam ir compreendendo com a sua ajuda: a universalidade – tudo que é vivo um dia vai morrer –, a irreversibilidade – quando morre, não há volta – e a não funcionalidade – depois de morto, o ser não corre, não dorme, não pensa, não age.

 

Crianças podem ir a velórios ou enterros?

Não se pode forçar, mas elas se beneficiam de participar junto aos adultos deste ritual de passagem. “Explique direitinho o que é um velório e um enterro e pergunte se ela quer ir. Mas nunca decida pela criança a deixá-la de fora”, indica Silvana Rabello, professora do curso de psicologia da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo). Os rituais servem para que todos vivenciem melhor a despedida, inclusive os pequenos. E não se preocupe: os especialistas concordam que velórios e enterros não traumatizam as crianças.

 

Como contar para elas que alguém próximo morreu?

É importante não esconder nada, muito menos invente histórias para poupar os pequenos.  Explique o que aconteceu logo que possível. Atrasar a notícia não vai diminuir a dor. Não devemos esquecer que as crianças observam tudo o que acontece ao seu redor, inclusive a dor e o sofrimento dos outros.

Quando a criança é muito pequena é importante também não usar frases metafóricas como “ele dormiu para sempre”, “descansou” ou “fez uma longa viagem”, pois esse tipo de frases só vão confundir a cabeça infantil.

Crianças levam tudo ao pé da letra e podem achar que a vovó vai acordar ou que todo mundo que viaja nunca volta. Tentar esconder a perda contribui para que a criança desenvolva uma teoria própria muito distante da realidade, não menos dolorosa, que pode resultar em um processo ainda mais complicado de abordar no futuro.

Além disso é preciso oferecer um ambiente desinibido onde elas possam falar livremente. Devemos deixar a criança expressar seus sentimentos, preocupações, emoções, tendo em conta as suas características especiais. A criança não pode manter por muito tempo um estado de espírito negativo, ao longo do processo de luto, haverá momentos em que ela estará distraída. Isso não significa que ela não sente dor, que não está sofrendo, que não está passando por um luto ou que se esqueceu da sua família.

 

Como ajudar as crianças durante a fase de luto?

Nessa fase é preciso demonstrar que, como ela, você também está sofrendo e sente saudades. Deixe que a criança fale sobre seus sentimentos e, acima de tudo, dê apoio e acolhimento. Garanta que ela nunca estará sozinha e sempre haverá alguém para cuidar dela. Isso porque o ente que se foi pode ser um dos pais ou o pequeno pode começar a pensar na mortalidade deles.

“Não exclua as crianças das conversas, da tristeza. Ouça o que elas têm pra falar ou peça para que desenhem o que estão sentindo”, indica Silvana.

É natural que os pequenos apresentem mudanças de comportamento depois que recebem a notícia da morte de alguém com quem convivem. Além do choro e da raiva, alguns começam a ir mal na escola, ficam hiperativos ou fazem xixi na cama. Considere a ajuda de um psicólogo e até da escola. É importante que a criança sinta que tem o apoio e a atenção dos colegas e dos professores.

Como acontece com os adultos, a memória afetiva nunca vai desaparecer. Mas, depois de certo tempo, acontece o chamado luto saudável, quando se percebe que é possível se lembrar do ente querido de forma leve e sem sofrimento.

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